domingo, julho 27, 2008

Depois do Regresso!

Regressei em 14 de Agosto de 1975.
A minha vida teve um retrocesso, para o qual eu mentalmente não estava preparada.
Primeiro tive de voltar para a casa dos meus pais, depois de tanta luta para sair de lá. Depois como todos os que viemos daquela bendita terra, eu estava sem emprego e a minha cabeça já não pensava da mesma forma como antes da partida. Os sonhos tinham se desvanecido, por saber que cá não tinha hipóteses de me projectar . Como não consegui trazer o meu certificado de habilitações, foi um problema a minha matricula, para continuar a estudar . Quando estava a pensar começar outra vez a partir da 4ª classe, ouve uma escola que me aceitou e ao fim de eu correr durante um mês de escola em escola. Por fim consegui matricula-me, mesmo sem qualquer documento certificativo das minhas habilitações, na Escola Comercia de Alberto Sampaio.
Éramos os regressados de África pessoas mal aceites pelos Portugueses como nós, só que tínhamos tido a coragem de tentar melhorar de vida, dentro daquela terra que na altura era nossa, eu que não passava de uma vítima do 25 de Abril fui aplicada do vulgar nome de Retornada, com todas as consequências negativas que daí advinham. Sou uma pessoa com um íntimo alegre, depressa me enquadrei de novo e voltei a sorrir. Desta vez estava na minha terra de novo. Os projectos que antes de ir tinha, varreram-se da minha cabeça, ficou apenas a vontade de estudar.
Alguma coisa se partiu com a minha ida e vinda de África, sei que nunca mais fui a mesma pessoa, talvez tenha acordado, para um mundo que até então desconhecia.
Passei a perceber que existem pessoas boas, mas que também existem pessoas muito más.


Dois anos depois, voltei a trabalhar num escritório .
Então,eu trabalhava de dia e estudava á noite. Consegui fazer o meu 2º ano complementar , tendo sido dispensada de exames com a média final de 17 valores . O 2º ano complementar ,significava o mesmo que agora o 12º ano. Foi uma média boa que me dava hipóteses de ingressar numa carreira Universitária. Nada nesta vida me foi facilitado e esta foi mais uma delas. Quando eu muito feliz contei á minha Mãe que ia ingressar no curso de economia da Universidade do Porto. A minha mãe ficou muito feliz, aliás era ela a única que se congratulava com o meu sucesso escolar, ela sempre me considerou boa aluna, não sei porquê mas foi…Quando acordei para a negra realidade, estávamos no ano de 1982. Acontece que a minha mãe pensava que ir para o Porto era o mesmo que ir para a escola Secundária Alberto Sampaio . Escola onde estudei até completar o 2º complementar, e onde se encontra o meu cadastro escolar.
Quando acordamos, eu e a minha mãe para a realidade, de que não tinha possibilidades financeiras para ingressar na faculdade e continuar a estudar, ou seja para ir todos os dias para o Porto e vir. A minha Mãe disse-me: Até 10.000$00 eu dou-te mas era impossível, transportes, livros e todo o resto. Era impensável não tinha hipotses. Tinha de alguém me ajudar a pagar os meus estudos, ou não podia continuar. Claro que foi a segunda que venceu .Fiquei apenas com o meu 2º ano Complementar de Contabilidade e Administração, concluído em 1982.
De nada me serviu estudar, apenas para ter um pouco de cultura geral. A falta de dinheiro controla este mundo. Ainda hoje sinto revolta, por sentir que não tenho formação académica por falta de possibilidades. Concluo que o 25 de Abril me cortou as hipóteses de poder voar mais alto.

terça-feira, julho 03, 2007

Fomos tratados como cães vadios!...



A forma como tudo mudou em Luanda, depois do 25 de Abril, é difícil de descrever, aí que a descrição que se segue seja longa, muito longa.

Em Luanda, estudava numa escola nocturna. Eu e algumas das professoras éramos as únicas brancas, mas isso não impedia que, até então, fossemos todas amigas, como é normal numa sala de aulas. Cerca de um mês depois do 25 de Abril, tudo começou a mudar. Passei a ser marginalizada. Fui várias vezes agredida sem saber por quem, com pauladas e socos nas costas, sempre acompanhadas da frase maldita: "vai-te embora ó branca!". Agressões aleatórias a caminho da escola, por colegas negras, sem qualquer razão que a não a denunciada pelo "vai-te embora ó branca!" aconteceram várias vezes. O ambiente começou a ficar bastante hostil. Em Maio do ano seguinte e como faltava pouco para acabar o ano, que eu não queria perder, ia tentando aguentar a situação. Não contava nada em casa, para que não me impedissem de ir à escola.
Recordo o terror vivido numa das minhas deslocações para o liceu. No autocarro, do trabalho para a escola. O autocarro ia abarrotar de cheio,claro que só iam pessoas de cor, eu era a única branca. Pouco depois numa paragem ainda na baixa de Luanda, entrou a minha professora de ciências . O autocarro foi seguindo o seu percurso, e esvaziando. Quando não restavam mais do que uns 20 passageiros, velhos e novos, todos negros, mais eu e a professora, começaram as provocações, com gritos de "morte ao branco" e a fazerem obscenidades ao pé de nós. Permanecemos aterradas, como que paralisadas, eu e a professora, sem sequer ousarmos olhar uma para a outra, procurando não dar qualquer pretexto para que algum iniciasse o ataque. Eram inúmeras as histórias de autocarros desviados para os musseques, com violações e assassinatos, pelo que procurámos evitar qualquer comportamento, gesto ou olhar que pudesse servir de pretexto, mas foi tanto o terror porque que passamos nessa viagem, ainda hoje me lembro com pavor desses momentos, vi a violação e morte na minha frente… Acho que só não aconteceu porque, quer eu quer a professora, ficamos paralisadas e parecíamos umas múmias sem vida, sem reacção, invadidas peloo terror. O coração batia mas o cérebro estava paralisado. Foi a primeira vez na minha vida e única em que paralisei de terror tal foi o pavor infligido sobre nós, durante essa viagem. Quando chegamos à paragem perto da escola, nem nos conseguimos levantar, tal era o terror sentido. No entanto eles, que nos tinham identificado pelas batas, encarregaram-se de nos empurrar porta fora, como quem atira com sacos de batatas, e com umas estaladas e uns "anda branca, por hoje tens sorte!". Depois disto, nunca mais andei de autocarro.

Cheguei muitas vezes ao Liceu para deparar com cartazes a preanunciar explosões para as nove da noite. Sozinha, meio perdida no meio da confusão, voltava para trás, pé ante pé, com medo de ser notada pelos muitos grupos de miúdos, com um máximo de 10 anos, que andavam com varapaus na mão, a perseguir tudo o que mexia. Entravam pelas casas adentro, espancavam quem lá encontrava, saqueavam o que lhes apetecia e depois, mais tarde, iam os mais velhos acabar o serviço - o que consistia em matar quem persistia em lá ficar, mesmo depois dos saques. Num dos dias vi um destes grupos, enquanto me afastava da escola, e imaginei de imediato o meu fim ali mesmo, às mãos de uma dezena de crianças. Por milagre de Deus, eles não me viram, pois iam do outro lado da rua e era noite. Vi-os a entrar para uma das casas da rua e eu só ouvi os gritos dos infelizes que lá viviam. Afastei-me o mais depressa que pude, mas sem correr para não atrair as atenções.
Num outro dia assisti a dois ou três negros a tocarem à campainha de um prédio. Quando alguém veio à janela, dispararam as metralhadoras que traziam. Nem parei para olhar, afastei-me o mais depressa que pude. Soube, depois, que tinham abatido o proprietário de uma farmácia.

Andar na rua era, assim, um risco grande. Valiam-nos as muitas árvores existentes à noite e a pouco iluminação. Por outro lado, era pouco crível uma branca andar pela rua de noite, pelo que eu vestia um casaco preto e uma calças castanhas, tirava a bata da escola, que era branca, e assim era mais difícil reparem em mim.
Era frequente ver passar camiões da tropa, com panos pretos a tapar o interior. Dizia-se que levavam pessoas que tinham sido mortas.
Havia milhares de angolanos brancos que não conheciam Portugal, pois já há gerações que as famílias respectivas lá estavam. Dessas morreram famílias completas, para saciar a sede de vingança. Nunca cá ouvi referência alguma a esta situação.

Lembro-me doutra situação que aconteceu estava eu no escritório onde trabalhava, no Largo Diogo Cão, de frente para o porto marítimo. A certa altura apercebi-me de uma grande confusão no local de onde saiam os camiões e deixei-me estar a observar e tentar perceber o que era. Vi um homem branco a ser agredido à paulada, e ser arrastado. Até o ferro da paragem do autocarro foi arrancado para o agredirem. O homem conseguir meter-se por baixo de um carro estacionado. Entretanto vi parar um carro cheio de negros, conseguiram tirá-lo debaixo do carro onde se tinha escondido meteram-no dentro do carro onde viajavam, e arrancaram em alta velocidade. Os meus colegas que trabalhavam na estiva disseram que era o carro da sede do MPLA, para onde o levaram e onde acabou por ser assassinado. Coisas destas eram constantes. Soube depois que tudo tinha começado quando o infeliz ia a tentar sair do porto com o camião e um grupo de estivadores, de rádio ao ombro, não permitia a passagem do camião. O homem teria parado, e pedido para o deixarem passar. Ora, como podia um branco estar a dar ordens!? Só podia estar a pedir para morrer... e foi o que aconteceu.

Quantas vezes não vinha uma rajada de metralhadora do morro que existia atrás do palácio do governador? Muitos morreram assim, sem que nada os protegesse das balas perdidas. Não havia pão, não havia leite, não havia um mínimo para nos alimentarmos, em lugar algum. Tive alturas em que esperava que uma bala me matasse como quem espera a coisa mais normal da vida, nunca pensei ser possível sobreviver, tal era a a sanha dos ataque aos "brancos". Pensei que ia lá morrer, pois além de toda a violência contra nós, também se guerreavam entre eles e, frequentemente, ameaçavam rebentar os depósitos da gasolina e aí Luanda seria uma bola de fogo.

De todos as situações porque passei houve uma que me marcou e me traumatizou mais. Foi na altura em que o bairro onde morávamos "ficou no meio" de um ataque das forças do MPLA contra as forças da FNLA. Passámos a noite toda com crianças de dois e quatro anos debaixo das camas, com um tiroteio sem fim, lá fora. No nosso jardim estavam forças do MPLA, armados até aos dentes, com lança-roquétes (nome que ouvia chamar aquilo), granadas, tudo que era possível. Foram tantos os tiros que atingiram a nossa casa, mas por Deus nenhuma granada a atingiu. Estávamos todos petrificados de medo, quando nos bateram á porta aí a nossa respiração parou... Um primo meu, de rastos, foi à porta e abriu-a. Os do MPLA pediram uma garrafa de óleo pois as armas estavam a encravar e, de caminho, perguntaram se havia liamba. Face à resposta negativa do meu primo sobre a liamba, eles voltaram para as posições de combate.

A manhã chegou sem que ninguém tivesse conseguido pregar olho. Num acto de desespero o meu primo e pai de duas meninas, saiu de casa fora em direcção ao jardim nas traseiras da casa e foi fazer lume com carvão e aí arranjou os biberões para as filhas, que estavam cheias de fome. Nós continuamos nos esconderijos . Um grupo tropas Portuguesas, penso que da marinha, ia a seguir em alta velocidade pela marginal, quando começou um tiroteio muito forte. Tiveram de parar e correram, saltando os muros do nosso jardim, a deitaram-se no chão. Lembro-me que um, ao cair, bateu num vaso em pedra e acho que deve ter partido qualquer coisa pois, depois de ter abrandado o tiroteio, quando se foram embora, tiveram de levar esse camarada em braços. Os covardes esqueceram-se que estavam lá os compatriotas deles. Fugiram que nem ratos.

Num desse intervalos entre tiroteios, o meu tio disse: "Tudo para os carros!". A correr, quase uns por cima dos outros, fugimos do nosso bairro que estava a ser massacrado e fomos para a baixa de Luanda, para a casa de uns parentes. Nunca mais voltei à Praia do Bispo. Saí de casa com a roupa que tinha e o que me valeu foi uma mala de roupa que tinha mandado, já há algum tempo, por um soldado vizinho.



Antes da viagem de volta à metrópole, trocaram-me 5 mil angolares por 5 mil escudos, pois os angolares não valiam nada fora de Angola. Deixei uma ordem de transferência do meu outro dinheiro para aqui, transferência essa que, até hoje, nunca se completou. Passados uns dias pudemos, finalmente, ir para o aeroporto e arranjar lugar num avião. Foi preciso ter recorrido aos conhecimentos que tinha por trabalhar com as companhias de navegação para conseguirmos os bilhetes. Mas nessa altura eram milhares e milhares os que dormiam no chão, no aeroporto, crianças tudo, sem condições, sem alimentação, á espera de poder conseguir regressar! O que eu vi, meu Deus, quanto desespero.

Saímos de Luanda no dia 9 de Agosto de 1975, ás 22h00. Ao sobrevoar Luanda chorei convulsivamente, porque eu adorava aquela terra, tão linda, tão maravilhosa. Senti, nesse momento, que não voltaria lá mais...

Porquê sair assim? Porquê passar por todo este terror para milhares de pessoas que chamavam a Angola a sua terra? Foram muitos dias meses de um terror que não esquecerei, vivido na primeira pessoa.

Obs. Será difícil para todos os senhores do 25 de Abril de 1974, compreender que o tratamento dado aos expoliados das nossas excolónias foi indigno, e comprender que eles (esses senhores) não merecem qualquer respeito por parte dos que foram lá maltrados e aqui rejeitados e aplidados como (os retornados). Os ricos safam-se sempre quem sofre é sempre o povão...Não acreditam!...Quem era lá rico aqui também continuou a ser rico...Os diamantes estavam para eles á mão de semear. O povo sempre o Povo. É quem paga, as cabaladas .O que noveu o 25 de Abril e 1974 foi a sede do Poder.

terça-feira, abril 03, 2007

25 de Abril em Luanda


Tão linda e o que fizeram com ela!...


Passei por muito em Luanda, principalmente por viver num regime de vida muito diferente daquele em que tinha vivido até então. Além disso, a maneira de ser dos meus parentes em nada se assemelhava aos de cá, da "Metrópole". Tinham uma forma de estar na vida totalmente diferente e esse diferença afectou muito a minha vida e alterou bastante a minha estabilidade emocional, ainda hoje não superei totalmente. Deixei de ser uma rapariga sonhadora, frontal e espontânea, para dar lugar a uma mulher sossegada,perdi muita da minha inocência apercebi-me que o mundo era cruel. Na prática, passei a obedecer apenas e perdi a vontade própria.Eu apenas queria viver sem que me torturassem. A rapariga faladora calou-se, a rapariga sem segredos passou a tê-los, a rapariga que contava tudo da sua vida "morreu" para dar lugar a uma pessoa calada que só falava quando lhe perguntavam, era uma pessoa mogoada com a vida, pois compreendi que fui enganada e não tinha solução, por isso nada melhor que aceitar as ordens e as regras. Deixei de ser espontânea para ser apenas aquilo que os outros queriam que eu fosse, o sorriso dos meus lábios fugiu para não voltar. Passei a viver em função da preocupação de não errar e não desagradar.
Numa das manhãs de Luanda, cheguei ao escritório para um dia que prometia ser igual a tantos outros, pensava eu. Mas não foi… A certa altura apareceu esposa do Sr. Aragão, o meu patrão, com um rádio na mão. Seriam entre as 9 e 9,30 da manhã, em Luanda, por isso menos uma hora em Lisboa. Entrou como um vulcão e dirigiu-se ao gabinete do marido. Pelo que pudemos perceber, a rádio estava a noticiar que as comunicações com Portugal estavam cortadas, porque se tinha dado uma revolução. Confesso que nem percebi o que isso significava, na altura, eu não percebia o que significava a revolução, nunca ouvira falar e tal coisa a não ser nas minhas aulas de História. Terminado o dia de trabalho, quando voltei para casa, perguntei ao meu tio o que significava, e ele lá me contou.Logo me lembrei do meu irmão e fiquei super aflita pois ele era um tropa em Lisboa nessa altura, chorava por todos os cantos,o meu querido irmão numa guerra!... Segundo o meu tio os militares tinham-se revoltado e a Pide estava a resistir, pelo que podia haver mortes. Fiquei convencida que havia guerra em Lisboa, logo em Lisboa, onde se encontrava o meu adorado irmão, e ainda com as saudades que tinha dele, ainda me fazia sofrer mais, que dor eu tinha no meu peito. Logo nós que ficaramos felizes por ele não ter ido para a guerra, e foi a guerra ter com ele, era injusto, pelo que fiquei apavorada. Mal sabia eu que o pior estava para acontecer e reservado para nós ,os que vivíamos fora da Metrópole. Acho que ninguém que não tenha passado pelo que nos estava reservado, pode sequer imaginar o terror dos tempos que se seguiram á bendita revolução.
Nós que, até então, trabalhávamos, estudávamos, vivíamos uma vida simples, sem sobressaltos, e em paz, vimos tudo alterado num ápice. Um mês, nem tanto passado sobre o dia da revolução e o medo passou a estar sempre presente, para nós, os de pele branca. De todo o tempo que tinha passado em Luanda, desde a minha chegada, já me tinha sido possível ter uma ideia aproximada da vida naquela cidade. Não era muito diferente do que se passava na metrópole, embora me parecesse que se vivia melhor em Luanda. Claro que havia gente pobre, claro que havia gente que vivia mal, mas no geral parecia-me que as coisas lá eram bem melhores que por cá. Haverá quem diga que havia mais negros que brancos a viver mal, o que é verdade, porque em Angola os negros eram em muito maior número. Mas o país era rico e isso permitia que todos vivessem de modo mais ou menos aceitável. A verdade é que eu nunca tinha feito mal a negro algum, nem nunca tinha visto ninguém a fazer mal, também. Trabalhava rodeada de negros e estudava rodeada de negras, e pelo que podia ver, tinham mais ou menos o mesmo nível de vida que eu tinha, vestiam o que eu vestia, comiam o que eu comia, a única diferênça era a cor da pele.
Nunca ninguém cá contou o que passou a quem estava em Angola, depois o 25 de Abril, até à hora de conseguir lugar num avião, ou num barco, para voltar ao nosso querido Portugal. Eu, não tive grandes problemas em arranjar lugar num avião assim como para toda a minha família, eu trabalhava ligada com as companhias de navegação, quer marítima quer via aéria, foi com facilidade que compramos bilhetes, escolhemos a data de 9 de Agosto de 1975 para embarcar, e viemos num voo da Tap um 747 e saimos de lá ás 22 horas com destino a Lisboa . Mas o desfazer de projectos que tinha em mente para o futuro isso foi tudo gorado, para que sofri eu tanto. Mas chegada cá a verdade é que tinha a minha família desesperada á minha espera. Pior foi para aqueles que lá tinham nascido há gerações e gerações, que só por serem brancos tiveram de perder tudo e vir para um país que lhe era estranho e hostil. Foram de lá corridos sobre a pena de serem mortos se não o fizessem. Quando cá chegaram foram maltratados e intitulados de “retornados”, exploradores de pretos. Não houve forma mais cruel de tratar os espoliados, expulsos da sua terra natal por serem brancos, indesejados na metrópole por serem retornados . Quem era rico lá, conseguiu não deixar muita coisa e passar para a África do Sul ou Brasil e outros países vizinhos, mas quem vivia do seu salário, sem posses para fugir, suportou toda a malvadez de vingança que se lá passou . Os senhores do capital trouxeram para cá milhões em ouro e diamantes e cá continuaram com as suas fortunas, mas o povo, como sempre, foi o sofredor. Os senhores do 25 de Abril condenaram um povo que, por opção dos seus antepassados, vivia naquela terra. Não houve condescendência ou tolerância, apenas vingança e mais vingança contra todos os que tinham a pele branca.

Com a revolução em Lisboa, as tropas portuguesas em Angola, perderam a autoridade total assim lhes foi ordenado e eles assim cumpriam, era como nós não fossemos Portugueses nada faziam para nos proteger. Era como se a atitude anti-guerra, motivação originária da rebelião militar, tivesse assumido a preponderância sobre tudo o resto, deixando quem estava em Angola, à mercê de toda a espécie de malfeitorias. Não havia quem nos protegesse. Cada saída era um imponderável. Foram incontáveis os ataques, os roubos, as agressões, as violações, as mortes, sem que militares ou polícias fizessem alguma coisa. Assisti a coisas que davam um filme de terror, noites e noites de bombardeamentos sem fim…
Ao que se constava, as ordens que os militares e a polícia tinham, a mando de Rosas Coutinhos e similares, eram apenas para virem embora e o mais depressa possível, deixar tudo e regressar a Lisboa. Ainda lembro, como eu cheia de angústia via as nossas tropas a passar á nossa porta na marginal, em direção ao local de embarque.Era tão aterrador assistir a essa situação, pareciam uns covardes a fugir e a abandonar o povo o seu povo, que até então defenderam. Deveriam ficar até o último Português estar a salvo, deviam defender-nos protegendo-nos e tentar impedir que nada de mal nos acontecesse, tenho a certeza que seria assim num país civilizado, e que tivesse respeito e patriotismo, mas sabem lá o que é isso os homens do 25 de Abril, só ódio e revolta e raiva. Não tenho qualquer respeito pelos que ordenaram essa creldade.Não consegui trazer nada a não ser, trazer 5.000$00 ,trocado por 5.000 Angolares, tudo o resto, que tinha economizado para puder vir cá passar férias, teve de lá ficar,com uma ordem de transferência para um banco aqui na minha cidade, mas ainda hoje não apareceu.E já lá vão trinta e uns anos.
Irei em breve postar um texto com o terror que lá passamos e que eu sou uma testemunha ocular.


Dois dos Nossos Carrascos

domingo, novembro 26, 2006

Liberdade em falta, ciume e maldade em excesso

Em casa dos meus pais tinha uma liberdade que não valorizava. Era uma liberdade total, para andar campos fora, correr, saltar, subir a uma árvore, gritar, cantar, ver televisão até à hora que me apetecesse, ir à noitada de S. João, enfim, uma liberdade sempre presente.

Se em Luanda adorava o meu trabalho, foi também lá que, qual pássaro preso em gaiola, me apercebi, cruamente, da falta que me fazia a liberdade antiga. Que saudades tive eu, de tudo o que tinha a ver com a vida em casa dos meus pais. Até das constantes brigas com os meus irmãos tive saudades, mas acho que o que mais saudades me provocou era a autenticidade sempre presente, sem ponta de ironia, hipocrisia, falsidade ou cinismo, e a privacidade que tinhamos uns em relação aos outros. E quando o meu pai ou Mãe batia num eramos um por todos todos por um, sempre nos defendemos uns aos outros, nunca por nunca nos acusamos mutuamente, eramos genúinos e leais.

O ambiente no escritório onde trabalhava era muito bom. Os meus colegas eram carinhosos e recordo com especial saudade uma amiga, com quem gostaria de ter tido a possibilidade de trocar moradas, não fosse a precipitada saída de Luanda, nos quentes dias pós-revolução na metrópole. A Felismina, assim se chamava, era do Porto, onde morava na Rua dos Bragas, e estudava economia. Nunca mais soube dela desde que saí de Luanda, e as saudades dessa querida amiga são mais que muitas. Era maravilhosa comigo. Costumava levar-me um miminho depois do almoço – ora umas fatias de delicioso bolo, ora fruta, ora biscoitos muito bons, feitos pela avó, e de que eu gostava muito.
Das pessoas que comigo conviviam em Luanda, só a Felismina conhecia o meu sofrimento pela distância da minha família, e não foi difícil que ela própria se começasse a aperceber de que não tinha grande liberdade. Eram frequentes os convites que me fazia para que a acompanhasse nas idas ao cinema, mas que resultavam invariavelmente na minha impossibilidade de ir, dada a recusa dos meus tios em permitir tais saídas. A minha amiga Felismina era mesmo um raio de luz na penumbra das minhas relações pessoais em Luanda, e quem me dera poder voltar a encontrá-la, de novo, agora, passados tantos anos desde que a vi, pela última vez, na bela Luanda.


Eu e a minha prima Carlinha


Uma das minhas primas encarnava, sem dificuldade, o oposto da Felismina e deu-me a conhecer que as pessoas podem ter sentimentos que, até então, na minha simples ingenuidade, desconhecia. Se eu tinha completa vontade de trabalhar, ajudar os meus tios, estar sempre disponível para coisas que as minhas primas não estavam assim tão disponíveis, isso era sumariamente avaliado com um “ela é uma cínica, uma sabidona”. Sabia bem que enchia o meu tio de queixas sobre o que eu supostamente fazia, e ficou para mim claro que a motivação para tal comportamento era muito simples: o ciúme que tinha de mim, como mulher.
Nunca fiz nada na vida com segunda intenção, nem com vontade de ferir quem quer que fosse, pelo que o comportamento da minha prima me deixava profundamente sentida, e agravava as minhas saudades de casa, da minha família e da liberdade de que tinha gozado até à partida para Angola. Os sentimentos negativos acumulavam-se, a minha revolta era grande mas a verdade é que estava presa em Luanda, não tinha para onde fugir e nada mais me restava senão “aguentar” tanto quanto pudesse. Os meus tios também não ajudavam grande coisa na melhoria desta situação pois se, por um lado, “corriam” a minha prima, por outro lado não me poupavam a algumas reprimendas, apesar de eles próprios acabarem por reconhecer que eu nada fazia de mal, que o problema era a ciumeira da minha prima, e que o melhor era eu afastar-me dela o mais que pudesse, e evitar os confrontos a todo o custo.

O meu tio controlava razoavelmente bem a minha prima. A situação piorava, no entanto, quando ele tinha de se ausentar para o interior, onde ficava por períodos de tempo de duração variável. Nessas alturas aumentava a minha vulnerabilidade, porque a minha tia não conseguia ter “mão” nela, e as provocações surgiam, em catadupa, tudo servia de pretexto. Um dia desses, em que o meu tio estava para Cabinda, a confusão foi tal à mesa, ao almoço, nem posso precisar exactamente porquê, mas sei que mal consegui almoçar! Mas lembro que eram lulas (ainda hoje detesto lulas, por via disso). Quando cheguei ao trabalho ia transtornada, angustiada. O Sr. Teixeira, o gerente, foi ao pé de mim para me ordenar uns trabalhos, só que ao chegar ao pé de mim reparou que eu não estava bem e perguntou de imediato se me estava a sentir bem. Afastou-se e deu ordem a uma colega para ir falar comigo, para ver o que se passava. Eu estava apática e sem reacção, chamaram e Felismina para ver se conseguia que eu falasse. Ela optou por me trazer até ao jardim, mas eu ao entrar no elevador desmaiei, no que foi a primeira e única vez que tal me aconyeceu em toda a vida. Sentadas num banco, no jardim, ela tentou que eu falasse mas eu não conseguia balbuciar uma palavra, só acenava com a cabeça.
A Felismina sugeriu levar-me a passar a tarde na casa dela, talvez por se ter apercebido que eu estava num estado lamentável mas, por medo de represálias quando "elas" descobrissem, disse que não, que preferia ir para a casa dos meus tios. Contra a sua vontade, lá me levou.
Chegadas a casa dos meus tios, encontrámos a minha tia e a prima a Graciete. A Felismina era pessoa de poucas palavras, tinha muito nível e era muito educada. Quando elas se aproximaram do carro e perguntaram o que se passava, ela respondeu, com a verdade, e disse:"Não sei, só sei que desmaiou e não fala". Entretanto, eu já tinha entrado em casa e e ido para a cama, onde desatei num choro compulsivo.A minha tia e prima abeiraram-se de mim, disseram-me tantas e tantas, que eu entrei em estado de choque. Disseram até que eu teria manipulado a minha amiga, e achavam-me culpada por ela não ter sido simpática com elas. Sei que gritei a tarde toda, chamei por todos os meus familiares de Portugal - pai, mãe, irmãos e tios - numa gritaria em que pedi a cada uma para me ir buscar. Claro, "elas" ficaram aflitas e deram-me um valium 10, a ver se adormecia... de modo também a que a situação acabasse o mais rapidamente possível, não fosse o meu tio chegar.
Nem com o Valium adormeci. Continuei a gritar, era valente uma crise de nervos,e uma grande carência afectiva. Só ao terceiro Valium fraquejei, mas ainda sem dormir, o que não aconteceu sequer durante a noite. Quando o meu tio chegou, queixaram-se da minha amiga, que não teria sido simpática com elas, nem sequer lhes teria falado. Apesar de ser mentira, lá levei uma reprimenda, desta vez pela amiga, que era uma pessoa educada, e muito delicada, e que sempre gostou de mim e me tratou bem.
Na sequência deste episódio, fiquei dois dias de cama e passados 15 dias, apanhei uma pneumonia bastante grave, quase ia desta (daquela) para melhor.

Num outro dia, dia fui com os meus primos à matiné, no clube da praia do Bispo. Sem o sabermos, a minha prima foi à mesma matiné, com o marido (ela era casada, mas passava o dia em casa dos pais, com as filhas). Acabámos por nos encontrarmos todos à saída do cinema, com alguma surpresa nossa. O pedido de boleia que fizemos foi rejeitado com a rispidez habitual, pelo que voltámos a casa a pé. Quando lá chegamos, o ambiente era pesado, e eu pensei imediatemente que alguma coisa ia acontecer e comigo, porque se tivesse sido com os primitos que me tinham acompanhado ao cinema, eles teriam sido recebidos à “chapada”.


O Cinema Restauração, onde iamos às matinés


O interrogatório aos meus primos começou em seguida, e disso me apercebi por o ter escutado quando me dirigia para a cozinha. O meu primo Mateus, incentivado pelo meu tio a “contar a verdade”, ignorando a verdade pretendida, limitava-se a responder que nada tinha acontecido, pelo que foi premiado com uns quantos tabefes e uma ida directa para a cama, sem jantar. A Alice Maria, face ao mesmo convite, ainda se atreveu a sugerir que tudo não passava de “coisas da cabeça doente da Graciete”, mas lá teve direito aos tabefes da ordem. Faltava eu...
O interrogatório teve a presença da “acusadora” e o meu tio convidou-me de imediato a esclarecer “o escandâ-lo” que eu teria feito no cinema, com um rapazito com quem namorisquei. Os meus primos não confirmaram nada, como é óbvio, porque nenhum escândalo havia para confirmar, mas a minha prima insistia e o marido mantinha-se calado que nem um rato. Apesar da insistência do meu tio, nada havia para confirmar, a acusação não tinha pés nem cabeça, mas ainda assim apanhei uma valente descompostura e lá fui, também, para a cama sem jantar.
Tenho de confessar que senti uma enorme vontade de bater na minha prima, pela pura maldade do comportamento dela. Essa vontade, aliás, não era original, mas sempre me contive, mais por respeito aos meus tios.

Tanta maldade, no entanto, teve um forte efeito em mim. Acabei por ganhar uma depressão efiquei anémica, num ano, passei dos 63 para 50 Kg. Tive de tomar comprimidos para conseguir comer, pois perdera completamente o apetite de meter alimentos á boca.

terça-feira, setembro 19, 2006

Luanda, escravidão e namoro

Chegada a Luanda, encontrei uma realidade muito diferente do que esperava.
Em primeiro lugar, deixei completamente de ter poderes sobre mim própria. Passei a ser refém, quase escrava, dos meus tios. Só podia fazer e pensar consoante o que me ordenavam, era-me completamente vedado falar com qualquer pessoa sem a presença de algum deles, sair fora do portão estava fora de questão, não podia escrever ou receber correio da minha família sem que fosse primeiro inspeccionada por eles. Era horrível saber que violavam a minha correspondência.
O meu salário era de 3000$00 por mês, negociado por "eles" e pela minha prima, que trabalhava no mesmo despachante que eu. Desse dinheiro, tinha de dar 2.000$ em casa para pagar a minha estadia. Os restantes mil escudos eram para todas a minhas despesas: transportes, livros, uma ida ocasional ao cinema (e que, ainda assim, só acontecia se pagasse o bilhete aos meus primos mais novos para me acompanharem porque caso contrário não podia ir). Não podia, também, ter amigas. Amigos, então, nem falar nisso era bom!
Para lhes agradar e tentar vencer obstáculos, comecei a trabalhar muito, nas horas livres. Apesar de poder parecer que isso seria bom para a forma como me tratavam, nem tudo foram rosas (como já me estava a habituar a que sempre acontecesse). Pelo lado positivo, passei a ser para os meus tios aquilo que eles queriam que as filhas fossem (muito trabalhadora e aplicada em tudo). O pior foi que, para as minhas primas, passei a ser, persona non grata, porque as “limitações” do comportamento delas aos olhos dos pais tornaram-se mais evidentes. Apesar de tudo, uma coisa muito positiva resultou desta estratégia: tornei-me uma mulher que não tem qualquer medo ao trabalho, e ainda hoje assim sou!
Provando que podemos estar sempre pior do que o estamos, a estratégia também se virou contra mim. O meu empenho no trabalho foi aproveitado no pior sentido, e virei “escrava de serviço”. Para além do trabalho no escritório do despachante e de estudar, aos sábados passei a ter um quarto amontoado de roupa para passar a ferro, o que me ocupava o dia inteiro e, por vezes, nem todo o sábado chegava. Se alguma das coisas que fazia não ficava perfeita, era reunido o conselho de família, de preferência à mesa, antes de servida a refeição, para me ralhar e me dizer que eu não estava na aldeia, nem no campo, e que, dados os elevados padrões da família (!) tinha de ser perfeita. Este ritual de humilhação, perante todos, passou a ser coisa habitual.


A Praia Azul


Antes de partir para Luanda, tinha um namorado a cumprir serviço militar, colocado, precisamente, em Luanda. Contra a minha vontade, as minhas irmãs informaram-no da minha nova morada, o que teve como consequência que ele me tivesse procurado, e tivesse acabado por me encontrar na casa dos meus tios. Era um pouco louco por mim, embora eu não nutrisse o mesmo sentimento por ele. Depois de me ter encontrado, quis reatar o namoro, desta vez com Luanda como cenário. Os meus tios, como seria de esperar, não consentiram, porque achavam que ele deveria pedir autorização, coisa que ele, e bem, não aceitou. Ainda que por portas travessas, não fiquei desiludida com isso, porque ele não era o homem dos meus sonhos. Ainda por cima eu achava que os meus tios não tinham qualquer direito de o obrigarem a obter o consentimento deles, pois nem o meu pai o tinha feito, no passado.
A ausência de pedido oficial de namoro levou a uma pequena querela entre a minha família e o candidato a namorado. Preferi alhear-me um pouco dessa situação, porque também não me interessava muito dar a conhecer ao rapaz o que se passava, pois eu sabia que ele não era o homem com quem queria casar. Apesar de tudo, na situação em que me encontrava, um amigo, um cúmplice até, era capaz de me fazer jeito.
No entanto, num espaço de tempo relativamente curto, a situação mudou, e foram até os meus tios quem arranjou maneira de me obrigar a aceitar o rapaz de bom grado e cara sorridente. De repente o candidato a namorado passou a ter um “potencial” mais interessante aos olhos dos meus tios, porque se aperceberam de que o podiam usar para proveito próprio. Começaram por lhe pedir que trouxesse vinho da messe dos oficiais, uma vez que em Angola não havia vinho, tinha de ir da metrópole, o que o tornava bastante caro. Como na messe dos oficiais vinho não faltava, o “namorado”, para poder estar comigo, lá aceitava as “encomendas”. Eu, pelo meu lado, ficava furiosa com a situação, porque me sentia “vendida” por uns garrafões de vinho.
Lá fui “obrigada” a namorar o rapaz, pelo benefício que daí resultava para os meus tios, em consequência das coisas que eles podiam obter ou dos “serviços” que passou a fazer em casa dos meus tios. Sim, porque não se satisfeitos com as encomendas da messe dos oficiais, passaram a aproveitá-lo noutros trabalhos de conveniência, sempre que o infeliz não estava de serviço, como pintar a casa, polir mobílias ou outras coisas do género.
O namoro em Braga era uma coisa de brincadeira, pois eu não gostava do rapaz para me casar com ele, ou assumir um namoro a sério. Em Luanda, no entanto, lá me foi imposta a obrigação de dar um ar mais sério à coisa, dado o natural lucro do namoro para o resto da família. Ainda detestei mais isso, pois o rapaz fazia de criado deles, sem qualquer rebuço ou hesitação por parte dos usufrutuários dos bens e serviços. Assim, ao domingo à tarde, quando não íamos ao cinema (tendo o namorado que pagar os bilhetes da minha prima mais nova e do meu primo), lá ficávamos a “namorar” em casa, sentados um de frente para o outro no sofá da sala de estar, o que me era muito desagradável, por várias razões. Primeira e mais importante razão -eu não queria namorar! Depois, na casa dos meus pais, nunca se tinha a obrigação de seguir este ritual de namoro “supervisionado”. Ora eu não suportava estar ali de frente com um rapaz, sempre com alguém por perto, como se fosse pecado estar sentada na sala, sozinha, com um rapaz. Sempre pensei que ninguém faz aquilo que não quer fazer e, se o quiser, não há barreira nem supervisão que impeçam que o que tiver de acontecer, aconteça.


Na Praia Azul


Como disse já, fazia-me jeito um amigo, não um namorado. Por isso, procurei fazer-me aliada dele. Precisava de alguém em quem pudesse confiar, alguém que me ajudasse, até, a libertar-me da censura prévia à correspondência com a minha família na metrópole. Combinei com ele que passaria a ser enviada essa correspondência para o quartel, para depois me ser entregue por ele. Como já estava a ficar habituada, no entanto, o tiro saiu-me pela culatra, novamente. Sempre fui um espírito livre, nunca gostei de amarras, queria um amigo e não um namorado, e comecei a cansar-me daquele namoro de conveniência. Decidi, por isso, acabar com o namoro. Ele não aceitou bem o fim do namoro e fez chantagem comigo, ameaçando-me de contar tudo aos meus tios, pelo que fiquei um pouco refém dessa chantagem. A verdade é que eu não sou pessoa para me deixar levar por chantagens e, perdida por cinco, perdida por dez, o namoro acabou de vez. O namorado, provando a nobreza de carácter a que me habituei em África, contou a um primo meu a combinação que eu tinha com ele para escrever e receber correspondência da família. A revelação deu grande confusão, mas fiquei livre da chantagem e do parvo do namorado.

Vista de hoje, a minha vida familiar em África foi um terror. Mesmo assim, não quero mal algum aos meuss tios e primos porque, na altura, eu queria e tinha de sair daqui, porque sentia que este não era o meu mundo, e eles acabaram por me ajudar a concretizar esse desejo de sair de casa dos meus pais e a possibilitar a concretização do meu sonho: estudar e trabalhar. Como isso só podia acontecer longe dos meus pais, se não tivesse ido para Luanda nunca o poderia ter realizado.

Em compensação, achei Luanda magnífica! Adorei aquela terra, ó se adorei! Quantas saudades no meu coração por aquelas lindas praias de água quente, onde o vento é uma dádiva aquando estamos na praia.
Que saudades de Luanda e do meu cantinho na Praia Azul !...


Um cantinho favorito, na Praia Azul

quarta-feira, maio 10, 2006

Como um passarinho preso na gaiola

Cheguei a Luanda num domingo à noite, por volta das 23 horas. Desembarcámos no porto de Luanda e depois de recebermos a bagagem dirigimo-nos para casa dos meus tios. As minhas primas tinham uma mesa com muitas coisas para comermos,mas eu estava perturbada pela emoção e não consegui comer nada. Nessa altura senti-me sozinha e abandonada. Quando nos recolhemos para dormir, seriam umas 4 da manhã.

O nosso bairro


Levantei-me bastante tarde, penso que por volta das 11 da manhã. Tinham-me deixado dormir, acordei por mim própria. Tudo parecia estranho, muito estranho. A casa dos meus tios ficava na Av. marginal, no bairro da Praia do Bispo, de frente para a Baía de Luanda.

Ao jantar desse primeiro dia, fiquei a saber que eu iria trabalhar no mesmo escritório onde trabalhava uma das minhas primas, que tinha acertado tudo com o patrão. Ao que parece, havia uma espécie de protecção para as pessoas que chegavam da metrópole e quem quisesse trabalhar era logo colocado, não havia falta de emprego em Luanda nessa altura. Foi um pouco violento para mim, pois não cheguei a ambientar-me a nada, foi chegar e começar a trabalhar. Eu não estava preparada, foi errado terem me colocado logo a trabalhar, sem ver nada, pois cheguei era noite alta,não vi nada daquela linda cidade. No dia seguinte, a não ser lavar umas roupas minhas, só comi e dormi, nem um pé tirei fora de casa. Quando saí foi ao terceiro dia, levada no carro da minha prima em direção ao meu posto de trabalho. Confesso que fiquei bastante assustada. Era tudo tão diferente, tão belo, mas tão assustador. Percebi que, desse eu um passo em falso, e poderia nunca mais voltaria a ver os meus pais e irmãos. Gostei de ver as pessoas de côr diferente da minha, sentia vontade de me aproximar delas, mas logo fui repreendida, porque era perigoso. Era uma rapariga inocente, não via nada de mal.

Os dias lá começavam mais cedo e acabavam também mais cedo. Às 4 horas da manhã amanhecia e às 18 horas começava a anoitecer. Os serviços começavam a laborar às 8 da manhã.

Não é fácil descrever o que senti quando vi a baixa de Luanda. Era uma cidade linda e moderna, com prédios altíssimos. Um deles, com 22 andares, tinha no cimo um anúncio ao Banco Comercial de Angola. O prédio para onde fui trabalhar, e onde funcionava também a Universidade, tinha 23 andares e, ao cimo, o anúncio ao Hotel João XXI, que ainda nem sequer tinha sido inaugurado. Ficava em frente do porto de Luanda (no largo Diogo Cão).


A marginal e lá no fundo o prédio alto era onde eu trabalhava


A empresa em que eu comecei a trabalhar era de despachante. Tinha 25 empregados, dos quais apenas 5 europeus: os dois patrões, eu, a minha prima e um gerente. A relação entre todos era muito boa, todos eram afáveis e educados comigo, com a excepção do gerente, o senhor Teixeira, que era um homem rude e grosseiro. Todos me tratavam muito bem, até o Simões, o estafeta do escritório, bom rapaz, muito atencioso, sempre pronto para nos ir buscar aqueles maravilhosos gelados na hora do lanche. Apreciava, em particular, os gelados de manga e de maracujá, macios, deliciosos (aqui nem aprecio gelados!). Recordo ainda quando alternávamos o lanche e pediamos para nos trazer pregos no pão, feitos de bifes pequeninos, que não se viam fora do pão, mas tão deliciosos e tenros, acompanhados de uma coca cola gelada! Quantas vezes já tentei fazêr aqui esses pregos, mas é pura ilusão, não consigo, de todo.

E eis que eu, uma rapariguinha vinda da província, que já tinha saído da escola há 9 anos, sem outros hábitos de leitura e de escrita que não as cartas de e para os namorados, a famosa Crónica Feminina e um romance ou outro, fui desempenhar a tarefa de copista. Não minto se vos disser que me custou muito adaptar-me à minha nova vida. Foi bastante violento para mim, em todos os aspectos, pois nem mentalmente fui preparada para essa função, foi chegar e começar. Eu, uma rapariga habituada à liberdade do campo, habituada a dormir a sesta, é assim a vida na aldeia, sem horas para nada na casa dos meus pais, passei a regime rigoroso: levantar às 7,15, almoçar às 12 horas, lanchar às 15, jantar às 18,30, ir para a cama às 21 horas, e sem terem preparação. Foi só vais, e mais nada!


O edificio da Alfandega Marítima, eu trabalhava do outro lado deste largo


Não tinha por hábito tomar café, nem pela manhã nem depois do almoço. Na casa dos meus pais ninguém tomava café, era só leite e cevada. Não será difícil, por isso, imaginar que muitas vezes adormecia sentada na secretária devido ao hábito que tinha desde sempre (dormir a sesta),e depois do almoço era fatal. Era um sono incontrolável, nem lavar a cara o atenuava. Tomar café tinha medo, pois nunca o tinha feito. Que saudades senti, Deus meu, da liberdade que até então tinha tido, das minhas cantorias, das minhas correrias campos fora. Quantas vezes chorei, sentada na casa de banho, cheia de sono, com a cara encharcada em água, contra a prisão em que me encontrava. Os tios sabiam, que eu era uma menina ingénua,sem qualquer experiência, nunca tiveram uma conversa comigo, no sentido de me preparar. Sentia-me como um pássaro dentro de uma gaiola. Mas o meu lema é desistir nunca e, sózinha, sem ajuda, tentei arranjar forma de me adaptar. Claro que foi muito duro, posso dizer-vos que achei mesmos aterrador, psicologicamente, para mim.

segunda-feira, março 20, 2006

A magnífica viagem e o despertar para a crua realidade

No dia 5 de Julho, parti então rumo a Luanda.
Foi uma viagem fantástica, como nunca tinha feito, até então. Passados todos estes anos, ainda continuo a dizer que foi a viagem mais maravilhosa da minha vida. Embarcámos por volta das 11 horas, não posso precisar que dia de semana era. Entrámos no navio e fizeram-se, a bordo, as despedidas dos familiares que lá se deslocaram com esse propósito. Éramos 7 viajantes, entre tios e primos.


À partida de Lisboa...


Assisti a todo o processo de partida do navio, não quis falhar nada. Aquele toque típico que os navios dão quando largam foi uma coisa marcante, na minha cabeça. Foi como se o navio estivesse a dizer aos que ficaram no cais, "eu vou levá-los".
A sensação de passar por baixo da ponte, à altura, Salazar e depois a saída para o mar, tudo isso foi excitante para mim. Apreciei cada segundo, cada metro de avanço do navio, rumo a Angola.
Algum tempo depois da partida, os meus tios disseram que era altura de se ir para dentro. Lá fomos. Aproveitei para visitar então todos os cantos do navio acessíveis aos passageiros: a primeira classe, que luxo(!), com as paredes todas forradas a veludo, o chão com alcatifa vermelha, aposentos mais pareciam de reis e rainhas; a turística "A", onde eu viajava e a turística "B", que era a classe mais económica. A partir do primeiro dia de viagem, o acesso estaria limitado às duas classes turísticas.

A vida a bordo era magnífica, eu pelo menos assim a vi, à altura. Tinhamos 2 camarotes, cada um com 3 bliches. Como éramos 7, colocaram mais um sofá num dos camarotes, para podermos ficar juntos. O meu tio inscreveu-nos a todos para fazermos as refeições no primeiro horário, dos 3 existentes. Recordo a comida a bordo como sendo deliciosa, com um cheiro fantástico. O pão era sempre quente e saboroso.
os nove dias que a viagem demorou, eram vividos da seguinte forma:

Pela manhã tomávamos o pequeno-almoço ás 7,30. Ao fim íamos mais um pouco até ao nosso camarote para dar tempo que todas as pessoas se alimentassem. Depois por volta das 9,30 vínhamos para cima, ora passeávamos pelo convés, ou iamos jogar uma partida de cartas para a sala de fumo (assim era chamada). Depois ás 11,30 íamos almoçar, no fim do almoço dormiamos uma sesta - os meus tios assim obrigavam - e por volta das 15 horas voltávamos a subir. Depois dividíamos o tempo ora em banhos na piscina, banhos de sol, e sempre os fantásticos passeios no convés, a olhar o mar alto vi golfinhos no alto mar . Ao fim da tarde admirar o pôr do sol sobre o oceano é algo indescritível! Eu adorava estar debruçada na proa do navio e ver a frente do barco a cortar a água.
Ás 15,30 íamos lanchar e depois voltava a diversão: jogos, passeios, piscina. Às 18 horas era o jantar. Depois o serão era passado a ver cinema, ou em bailes, ou ainda a jogar “Loto”, ou às cartas.

Ao segundo dia de viagem, fizemos o treino dos coletes salva-vidas. Não achei grande piada e incentivada por uma prima desobedeci ás ordens dadas pela tripulação. Fomos repreendidas. Eu era nova naquelas andanças, mas ela não. O comissário acabou por dizer, num tom inconfundível de reprovação: "vou escrever no livro que duas jovens desobedeceram aos treinos de salvamento e que se alguma coisa acontecer durante a viagem vocês serão responsáveis pela vossa segurança". Exigiu, depois, que voltássemos para o camarote. Fiquei apavorada mas nada podia fazer, pois era a minha prima quem estava no comando da desobediência e rebeldia, e eu não sabia onde estavam os meus primos e tios, para poder "escapar". Ao deslocarmo-nos para o camarote as portas do navio foram-se fechando e as lampadas apagadas, como parte do exercício, o que aumentou o estado de ansiedade em que me encontrava, eu estava mesmo apavorada.

Ao atravessarmos o Equador o clima ficou horrível, com uma humidade insuportável.
Os veteranos em viagens de navio praxaram os iniciados com o "Baptismo de bordo".
O meu tio escondeu-me no camarote para me proteger das “sevícias “ a que eram sujeitos os iniciados. Lamentei, mas não assisti â praxe. Sei apenas que consistia em colocarem uma capa vermelha e verde nos iniciados e depois dizerem umas palavras enquanto outros deitavam quantas mistelas podiam na cabeça deles, desde farinha a ovos. No fim atiravam com os iniciados para a piscina, perante as palmas e gargalhada geral.

A primeira noção de que, finalmente, estava fora da proteção dos meus pais e irmãos surgiu aquando da visita feita no primeiro ponto de paragem do percurso rumo a Angola: Foi no Funchal. Só tinhamos uma manhã para estar atracados e para uma visita relâmpago. Aproveitei para ir a uma farmácia, comprar uma pinça para arranjar as sobrancelhas porque não tinha levado nenhuma, uma vez que em casa havia apenas uma para todas nós.
Primeira confusão. Acredito que, pelo menos aos olhos de alguns dos meus primos, seria vista, talvez, como provinciana. Não me tinha nessa conta, procurava vestir-me com elegância e seguindo a moda da altura, tinha boas maneiras (o que, graças a Deus, penso que hoje ainda conservo). Mas lá saimos, então do navio os 5, eramos todos jovens, e dirigimo-nos a uma farmácia. Comprámos o que queríamos e depois fomos dar um pequeno passeio, que achei muito bonito, um paraíso na terra o Funchal achei eu. O passeio foi divertido, mas eu senti qualquer coisa que nunca na vida tinha sentido, vindo de um dos meus primos: sarcasmo e desdém. Chegou mesmo ao ponto de me "humilhar" publicamente, com um tom arrogante e malcriado, o que me desagradou profundamente.


Chegada ao navio, recolhi-me ao camarote e fui escrever uma carta à minha mãe, contando-lhe o sucedido. Algo fez desconfiar a minha tia, que acabou por localizar a carta entre as minhas coisas, e passei de vítima a ré. Foi um mau bocado por que passei, porque me acusaram de estar a contar assuntos que só a eles diziam respeito, e que, apesar de contar o bom tratamento que me davam, também contava o vexame pelo qual os meus primos me tinham feito passar. A minha tia rasgou a carta na minha frente e mal fiquei sózinha no camarote, chorei amargamente a falta da minha mãe, do meu pai e dos meus irmãos, nunca tinha passado por uma situação semelhante. E começei a partir desse dia a saber, a ter a certeza, de que a vida não é cor de rosa, e que a hipocria e o cinísmo pareciam ir ser uma constante. Apercebi-me, também, que até aquela altura tinha estado protegida, mas que essa protecção tinha sido perdida quando escolhi sair da casa dos meus pais, para ir ao encontro da minha aventura. Estava sózinha e muito longe, e por muito alto que gritasse, os meus gritos nunca chegariam aos ouvidos dos meus protectores habituais...

A partir daí a minha tia passou a fornecer-me papel e caneta, sempre que eu queria escrever para casa, mas cedo me apercebi de que isso não passava de uma artimanha para ler o que eu contava à minha mãe e saber o que se passava na minha cabeça, eu não estava habituada a isso nos meus pais lá, apesar de viver-mos no campo, sempre se respeitou o espaço de cada um e ninguém nunca jamais abriu correspondencia de quem fosse, nem os meus pais faziam tal coisa,eu nunca usei ler uma carta da minha irmã por grande que fora a minha curiosidade, ela contava se queria e quase sempre contava, caso o não fizesse era para respeitar.


À chegada a Luanda...


Apesar deste episódio, a viagem prosseguiu, magnífica, tendo a chegada a Luanda ocorrido a 15 de Julho, cerca das 23 horas. Quando avistei os meus outros primos, à espera no cais, desatei a chorar. Chorei tanto, tanto! E enquanto o meu tio me procurou acalmar o choro, abraçando-me, a minha tia aproximou-se com um ralhete: "vê se te comportas, que estão ali as tuas primas!". Foi talvez o fim anunciado do ar romântico da aventura iniciada em casa dos meus pais. Fiquei convencida que essa aventura ia ser toalmente diferente do que esperara inicialmente, mais dura e até cruel e fiquei com a sensação que me tinha metido em algo que podia vir a lamentar... mas se alguma coisa não sou, hoje ainda, nem era à altura, é de voltar atrás ou de desistir dos meus sonhos!

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

África e o fascínio da liberdade


Depois do casamento da minha irmã, senti-me muito sozinha. Comecei a ter muitas responsabilidades, para as quais não estava preparada.
Comecei por ter de representar a minha mãe, na ausência dela, o que não me agradou, muito porque isso representou ficar sem um pouco da minha liberdade. Passei a ser, também, a responsavel pela casa, na ausência dos meus pais. Fui, assim, obrigada a tornar-me dona de casa à força.

Até esta altura sempre tinha sido "a segunda", uma espécie de "patinho feio" da casa. O meu pai via-me como alguém que não se adaptava à vida na quinta, o que levava a que nunca fosse chamada para nada. Isso dava-me uma certa satisfação, pois detestava aquela vida. Com o casamento da minha irmã, lá tive eu de assumir, forçada, o lugar dela. A partir dessa altura passei a sentir-me a rapariga mais infeliz do mundo. Achava que o mundo estava contra mim, até porque não tinha jeito nenhum para as novas "funções" de que tinha sido incumbida.
Foi um desastre total. Os meus irmãos não me respeitavam. Eu não tinha qualquer inclinação para ser a "patroínha", logo não cumpria em termos as ordens que me eram dadas. Comecei por sofrer todo o tipo de represálias dadas pelo meu pai, até físicas. Na opinião dele era uma maneira de me tornar mulher responsável e preparada para a vida. Foi um mau bocado, sofri bastante, bastante mesmo.

A minha liberdade surgiu porém com a vinda de uns tios meus, de África. Esses tios vieram de Luanda, visitar a familia, coisa que faziam mais ou menos de 3 em 3 anos. Pensei imediatamente que podiam ser a minha salvação, quando ouvi falar na chegada deles. Podia ter chegado a minha hora, desde que conseguisse convencer o meu tio a levar-me com ele, quando voltasse para África. No dia em que chegaram a casa dos meus pais, eu senti-me estranha. Passei de mal humorada a bem disposta e muito atenciosa com todos. Eu senti isso e penso que a minha mãe também sentiu. O meu tio era o irmão mais velho da minha mãe. Eles ficaram lá em casa a passar uns dias. Tratei de pensar numa estratégia para convencer o meu tio a pedir ao meu pai para me deixar ir com eles para Luanda. Para meu espanto, o meu tio e restante familia ficaram felizes com o meu pedido e o meu tio foi pedir ao meu pai. Ora o meu pai, com o seu ar de desinteressado, disse logo que sim, que não sabia o que fazer comigo, pois eu não tinha jeito algum para o tipo de vida que levava.

Desde aí até à altura de embarcar foi um tempo super feliz. Tive de tratar de muitos documentos, apanhar um monte de vacinas, arranjar roupa para o clima de África. Tudo que me pudessem dizer de mal da decisão de ir, nem queria ouvir, pois queria sair dali e quanto mais rápido melhor, não fosse o meu pai arrepender-se e voltar atrás na decisão de me deixar partir. Havia também o reverso da medalha: tinha pena de deixar a minha mãe e os meus irmãos mais novos. O mais novo tinha apenas 18 meses!

Chegou o dia de os meus pais me levarem a Cascais, á casa dos meus tios, para tratar dos documentos em falta e para eu tomar as vacinas que faltavam. Foi necessário também ir à secretaria do Ultramar para poder embarcar na companhia dos meus tios, que eram funcionários do estado e podiam levar-me e sem ter de pagar a viagem, que seria feita de barco.
Saí de Braga no dia 28 de Junho, um domingo, manhã cedo. Fui todo o caminho a cantarolar e rir. A certa altura, a minha mãe segredou-me: "Vais toda contente não vês o teu pai de lágrima no olho?!" Eu nem olhei para a cara da minha mãe e não ousei olhar para nenhuma das outras pessoas que iam no carro. Pelos vistos iam todos a chorar. Eu era a única que estava feliz.

Chegamos a Lisboa por volta das 10 horas. Fomos à missa, e de seguida para casa dos meus tios. Aí chegados, descarregamos as minhas coisas, fomos recebidos por toda a familia e fomos almoçar. Depois do almoço pediram para eu sair com as minhas primas, para os meus pais não se terem de despedir de mim. Nessa altura havia guerra em África, os nossos soldados tinham medo de ir para lá, contavam coisas horríveis, mas eu queria ir e não estava preocupada com isso. Saí então com as minhas primas, quando cheguei, tive um certo aperto no coração ao ver que a minha mãe já não estava uma lágrima de dor rolou no meu rosto.

No dia seguinte recebi um telefonema do meu pai, que eu não quis atender. Nesse telefonema, o meu pai disse ao meu tio que me queria ir buscar de volta, que não queria ficar sem mim, estava a chorar dizia que eu era a lembrança viva da mãe dele,que me deixaria cumprir o meu sonho de estudar e seguir a vida com que sempre tinha sonhado. Era tarde demais para isso,tinha tido tantos anos para me agradar e não o fez e apenas em 12 horas tinha mudado! Não...eu segui o meu rumo via Luanda,ao encontro da realização dos meus sonhos, e no dia 5 de Julho embarquei no Paquete Infante D. Henrique.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O casamento da minha irmã

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Chegados os meus 16 anos, comecei a detestar a vida que levava, e a não aguentar, mesmo. Deixei de achar graça a tudo dos meus 16 aos 18 anos foi um tempo muito aborrecido . Aquela não era, de todo a vida que queria para mim.
Os meus pais eram agricultores, pelo que claro que não nos era permitido sair de casa, excepto ao domingo. É verdade que as minhas amigas iam para lá fazer-me companhia e divertiamos-nos mas não igual a poder sair como elas faziam, mas elas podiam sair e eu não, essa é que era a verdade que me atormentava. Vestia de uma forma simples porque estava em casa e isso aos meus olhos era um problema,não estudava o que me deixava muito triste e aborrecida nunca mais chegava a maior idade para poder decidir e ir estudar, sair e poder vestir as minhas roupas bonitas, pois a mãe não deixava naquele tempo.
Que raio de vida aquela! Só sair aos domingos para dar um passeio e o resto do meu tempo todo passado em casa ou pelos campos, isso teve um ponto positivo, vi nascer quase todos os animais que existem por cá desde ratos cobras pássaros e tinha um jardim meu que era cuidado só por mim!Mas sair de casa é que nada! Qualquer saída que fizesse de casa tinha como limite o portão! Confesso que isso me tornou uma rapariga revoltada considerava-me uma prisioneira.
Eu já não era um mar de afectos. Era mesmo um pouco agressiva, mas esta situação persistente piorou ainda mais as coisas... Tentei que a minha tia, de quem eu gostava muito, me levasse para a casa dela, e ela acedia ao meu pedido, mas era preciso a aprovação do meu pai. Se a mãe deixasse que eu fosse com a tia para a casa dela, quando meu pai chegasse e eu não estivesse em casa ele assim que pudesse, partia à desfilada para me ir buscar. Nunca estive fora de casa mais de 15 dias.

Chegou o dia do casamento da minha irmã mais velha . Foi uma festa de arromba, com o almoço de casamento a ser feito lá em casa. Aquela azáfama da preparação do casamento foi algo que me fez vibrar de alegria, eram tantas pessoas a trabalhar lá! O almoço de casamento foi num celeiro, que foi todo enfeitado para a ocasião:com arcos feitos de hera e camélias vermelhas, no tecto cestas da vindima cheias de flores e trepadeiras. Todas as mesas tinham ramos de flores pregados nas toalhas, as paredes estavam todas forradas com lenços tradicionais do Minho e com apetrechos da agricultura.O Nosso celeiro ficou transformado num grande salão, tão lindo, tão fantástico, nunca tinha visto nada igual. Os convidados eram aí uns 150, o que para aquele tempo era um grande casamento. Ainda me lembro que o cortejo devia ter aí uns 70 automóveis. O pai contratou cozinheiros e serventes de mesa, e mandou matar animais de casa para o repasto. Foi tudo feito em casa, excepto o bolo de noiva.
A minha irmã ia uma noiva muito bonita bem como a minha mãe. Também as minhas irmãs pareciam princesas. Eu, como sempre, tinha de me vestir aos meus gostos, o meu vestido foi desenhado por mim, ficou muito bonito. Eu sentia-me muito bonita também ... mas o meu vestido era curto demais, o que mereceu a reprovação de algumas tias e da avó "Cazemira". Levei o cabelo preso, que a cabeleireira tinha enchido de laca e manchado de castanho e branco. Eu achei giro apesar de alguns familiares terem dito que era exagerado, mas eu sentia-me muito bonita.
A festa foi muito bonita, com tudo tudo feito em casa, digo tudo até as roupas vestido de noiva inclusivé,havia modista que ia para lá todas as semanas, mas nessa altura montou atlier lá na nossa casa, toda aquela azáfama era uma alegria. Durante 8 dias não se fez mais nada senão arranjar os enfeites para a festa. Foi tudo divinal, eu adorei.
O casamento foi numa capela na serra da Falperra, até nisso a minha irmã primou pelo bom gosto. Foi o casamento mais lindo que vi até hoje, e já fui a muitos. No final da festa, quando a minha irmã se foi embora, eu senti-me tão sozinha fiquei tão desolada chorei a noite toda ... Custou muito ver a minha irmã partir, primeiro para a lua de mel, depois do regresso da lua de mel,já não era igual ela estava diferente, parecia-me uma estranha chegou deu beijos e abraços a todos trouxe prendas, lanchou e foi embora para a casa dela,era uma vivenda pequenina muito arranjadinha e bonita, para mim foi um desalento sentir que a minha irmã não ia dormir mais connosco e dividir as nossas brincadeiras noturnas.E não iamos partilhar mais os nossos segredos, ela chegou das luas de mel e não contou nada do que se tinha passado com ela, era quase só o meu cunhado que falava por ela...

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Uma canção de natal que a minha sobrinha aprendeu no colégio.


Logo que nasceu
Logo que nasceu
Jesus acampou
E à luz das estrelas
Uma voz soou ( sussurrou )
Uaaa... Uaaa...
Maria a Senhora
Logo o embalou ( aconchegou )
E à luz das estrelas
Uma voz soou ( sussurrou )
Uaaa... Uaaa...
Logo que nasceu
Jesus acampou
E à luz das estrelas
Uma voz sussurrou
Uaaa... Uaaa... Uaaa.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Os meus namoros



Olá aqui estou eu novamente para falar mais um pouco sobre mim.
Hoje vou falar sobre os meus namoros, não estão a pensar que eu uma marmanja de 16 anos nunca tinha namorado! Nah, namorei sim…
Pois, tive o meu primeiro namorado tinha eu uns 14 para 15 anos. Ele era o rapaz mais giro da minha rua, pensava eu (e mais umas quantas!!!). Começou o meu coração a bater mais forte que o costume, quando passava por ele. Um dia mandou-me um bilhete por um dos meus irmãos mais novos, a dizer que queria namorar comigo. Foi algo que me pôs corada o dia todo. De cada vez que pegava no bilhete, o meu coração parava.
Dizia então o bilhete: "gostava de namorar contigo pois que és uma miúda fixe, se quiseres aceitar este meu pedido, anda logo à noite à mercearia e eu vou ter contigo". Fiquei a ponto de explodir. Pensei não ir à rua nos 15 dias seguintes, embora gostasse dele, mas aquilo era para mim muito confuso. Achava que morria de vergonha se ele se aproximasse de mim e, por isso, ficou logo decidido não ir à mercearia.

O meu pai, no entanto, havia de me trocar as voltas, porque me mandou buscar um maço de cigarros, coisa que a minha mãe logo aproveitou para me mandar comprar mais umas coisas. Se à ordem da minha mãe ainda podia dizer que não queria ir, a ordem do meu pai era nem pestanejar se podia, era ir e pronto. Assim, lá fui eu, ainda cedo, esperando que, por sorte, ele não estivesse à minha espera. Quando vi que não estava, fiquei muito aliviada e comprei o que tinha de comprar, desatando a correr em direcção a casa, de seguida. Quando já estava a fazer a curva para chegar a casa, ouvi alguém chamar-me e dizer "Espera aí!". Cristo, fiquei aterrada! Era ele! Aproximou-se de mim e disse-me que estava à minha espera desde o meio da tarde. A consequência foi evidente: fiquei num estado de vergonha tão grande que não consegui articular uma palavra. Ele, gentilmente, pegou no saco das compras e acompanhou-me até perto de casa. Quando estavamos já próximo acabei por lhe dizer para não me acompanhar mais, porque o meu pai podia estar à minha espera. Ele concordou e pediu-me para voltar á mercearia no dia seguinte. Com a cabeça, assenti.

Entrei em casa de tal maneira transtornada que era impossível não notarem que alguma coisa se tinha passado. Sentia o que se tinha passado como uma vergonha,um peso na consciência, como se tivesse cometido um grande pecado. Não consegui comer nada ao jantar, tal era o meu estado! No entanto, no meio de tantos irmãos, os meus pais acabaram por não notar nada. Fui para a cama sonhar com o que se tinha passado. Não consegui dormir, tal era o meu estado de ansiedade. "O que vou fazer?", pensava eu, "já namoro e vou ter de me casar!". Meu Deus, que confusão ia na minha cabeça! Hoje quando penso nisso é impossível não sorrir, mas que foi terrível, isso foi mesmo.

Depois dos primeiros encontros a coisa começou a melhorar. Ele era um rapaz bem maneiro, ia para a minha casa, andava nos campos dos meus pais aos pássaros, ora com fisga, ora com uma pressão de ar. Comecei a habituar-me a vê-lo por lá.
Eu sou, e sempre fui, uma pessoa de paixões intensas, mas sempre fui muito cuidadosa com a minha reputação e, por isso, enquanto ele andasse lá pelos campos dos meus pais, eu não saia de casa. Um dia, numa das minhas saídas para ir à mercearia, ele acompanhou-me como de costume e quando nos abeiramos de casa, disse: "Já namoramos há 2 meses e ainda não te dei um beijo, vou dar-to agora!". Aproximou-se e deu-me um beijo na face, seguido de outro. Que beijos mais complicados(!), pensei eu, pois cravava os lábios sobre as minhas bochechas e demorava muito a completar o beijo, nunca ninguém me tinha dado um beijo assim.
Quando consegui soltar-me das mãos dele desatei a fugir para casa. "Ora,meu Deus o que fui eu fazer? Deixar aquele rapaz dar-me beijos, o que ia ser de mim? Ia ter de casar com ele, estava perdida!". Lembrava-me de ouvir as empregadas dos meus pais dizer "Antes deles nos apanharem até as pedras da rua si riem para nós, depois é só dor e desgosto, nada mais tem brilho.". Ora pois, e eu que ainda nem sequer tinha tido as pedrasa rirem-se para mim, como tinha sido capaz de deixar que me desse os tais beijos, como tinha sido possível ter deixado aquilo ter acontecido! E eu que nem tinha gostado dos beijos! Foi muito complicado para mim, fiquei com a amarga sensação de que já não era uma rapariga livre, que tinha de casar com ele.

Confesso que não gostei e que me senti muito mal. A partir daí, o meu irmão mais velho, que deve ter visto a cena das beijoquices e deve ter contado em casa, o meu pai proibiu o "namorado" de entrar nos nossos campos. A minha mãe, muito simplesmente, disse que não gostava dele porque fumava, o que arrumou a questão. Ainda tentei "dar luta" durante uns meses, mas essa luta acabou aquando dum baile numa garagem de uns amigos, a que o meu pai não me deixou ir, mas a que o "namorado" foi e lá dançou com uma rapariga vizinha dele. Aí fui eu a acabar com o namoro. Nunca mais! Isso foi um alívio para o meu irmão, que ainda me chegou a dar uns cascudos por causa do namorado, tal era a perseguição que me fazia.

Foi com essa idade e da forma descrita que recebi o primeiro beijo e foi ele o meu primeiro namorado. E como o que custa é começar, a partir daí o que mais tinha eram pretendentes. Eram cartas, bilhetes, recados. Acho que me tornei mais ousada, menos tímida, depois dessa aventura. Mas namorar não era o meu forte. Detestava não acompanhar as minhas amigas para todo os lado e, claro que namorando isso não podia ser. Tinha de optar e a opção foi a liberdade, nada de namoros. Mas andava sempre em estado de paixão, ora por um rapaz que tinha conhecido no cinema, ora por um que tinha conhecido num baile de garagem. Eram paixões só minhas, eles nunca sabiam!

Com 17 anos, os meus pais levaram-nos pela primeira vez ao fogo do S. João. Conheci aí conheci um rapaz de uma freguesia um pouco distante. Pareceu-me muito interessante, vestia muito bem, era muito educado, bastante alto. Combinámos sair no dia seguinte. Durante o encontro ele pediu-me, oficialmente, namoro, e pela primeira vez na minha vida comecei verdadeiramente a namorar. Tinha a aprovação da minha mãe, o que para mim era um ponto negativo, pois sempre detestei fazer as coisas direitinhas. Achava que era fantástico e que tinha mais encanto se fizesse tudo no contra. Detestava que dissessem "muito bem, assim gosto!". "Quem tem de gostar sou eu", pensava eu, "e então se eles gostam, não gosto eu!".
Portei-me bastante mal com estee rapaz, acho que o fiz sofrer muito, e ele aturava-me tudo! Tinha de andar 10 Km a pé para se encontrar comigo, e eu era capaz de passar a tarde em grupo e não lhe prestar atenção nenhuma! Só quando a minha mãe chamava para entrar para casa, eu lhe dizia alguma coisa e era... "vou-me embora!". Coitado, aturou esta minha rebeldia durante uns 3 anos, até ter ido para a tropa. Essa partida foi um alívio para mim, mas aí portei-me de modo muito mais simpático, pois escrevi-me sempre com ele durante a o tempo que esteve em Angola.

terça-feira, novembro 15, 2005

O meu primeiro pretendente e a mudança...


Depois desse episódio anterior, penso que a minha irmã se apercebeu que eu estava apanhada pelo rapaz, a quem ela por acaso nem ligava nenhuma, pois ele não era o género dela.
Um dia eu e a minha irmã fomos à mercearia comprar coisas para a minha mãe. No caminho de regresso a casa, o filho de um amigo do meu pai abeirou-se de nós e, para meu espanto, não era com a minha irmã que ele queria falar mas sim comigo. Fiquei tão encabulada, tão vermelha e tão assustada, que ainda hoje me dá riso quando penso nessa situação. Ele dirigiu-se a mim e disse: "..."Queres namorar comigo? Tens uns olhos tão transparentes aos meus (!?) que os meus parecem ser teus e teus parecem ser meus." O meu peito pulava de vergonha, ai que me ia dando uma coisa! E logo a minha irmã a ouvir! Já sabia que ela ia contar em casa e todos se iam rir das palavras do rapaz. Só me apetecia correr, fugir ... e foi o que fiz. Desatei a correr e só parei ao lado da minha mãe, assustada. E não é que o rapaz também entrou?! Ele há cada um! Corri escadas acima e fechei-me no quarto.
Para a minha família foi um teatro pegado! Só a chegada do meu pai conseguiu pôr fim àquela situação, que eu achei ridícula e os meus irmãos se deliciaram, até a minha mãe se fartou de rir daquele pateta. Decididamente detestei o rapaz. Acho que ainda hoje não gosto dele pela vergonha que me fez passar.

Comecei a adorar a vida de solteirona(!). Com 16 anos não tinha ainda namorado e achava isso bom. Era uma maçada ter de sair sempre com a trela, gostava de ser livre!
Um dia combinámos ir ao cinema ver um filme que me apaixonou, e que mudou a minha maneira de pensar em relação aos rapazes. Foi "A Vida é Sempre Igual", de Júlio Iglésias. Ai como eu gostei daquele paraíso, como ele falava lindo para aquelas lindas mulheres, tudo era belo naquele filme.

Comecei a entrar na paranóia típica de adolescente: que era feia (eis-me a fazer promessas aos santos para não ser tão feia e começar a ficar bonita), que tinha espinhas, enfim! Chorava muito porque me achava feia. Nada para mim era importante pois não ia conseguir ser como aquelas belas mulheres, a quem o Júlio cantava musicas divinas! Ainda hoje tenho pena de mim e da angústia que isso me provocou... Mas como sou por natureza uma rapariga pronta para a luta lá consegui dar a volta. Sem o meu pai saber, resolvi tar o cabelo "à moda", deixei de usar tranças, e comecei a esticar o cabelo, porque na altura se usavam os cabelos muito lisos. Algumas vezes cheguei mesmo a passar o cabelo a ferro sem a minha mãe ver(!). Comecei a usar saias super curtas, e comecei a ficar uma gracinha. Acho que devia estar mesmo a ficar bonita, pois passaram a ser tantos os rapazes a querer disputar a minha atenção, que eu nem sabia o que fazer. Por essa altura não se usava telefonar, mas eram cartas, recados e bilhetes, por todo o lado. Era o centro das atenções de todos os rapazes!
Quando tinha 18 anos, mudámos de casa (e de freguesia). Achei que os pais não deviam ter feito isso, pois não pensaram nas raízes que tinhamos criadas. Foi aterrador ter de me separar dos amigos, adaptar-me a uma terra nova, gente diferente. Não gostei nada, sofri bastante e não me consegui adaptar. A minha mãe sabia que eu não gostava de morar ali, mas filho nessa altura tinha lá voz!!!

segunda-feira, outubro 31, 2005

Primeira paixão e primeiras desilusões


Os meus 16 anos

Aqui estou de novo para contar mais um pouquinho de mim, com algum atraso, de que peço desculpa.

Apesar dos contratempos que já fui descrevendo, sempre tive uma forte auto-estima. Isso levou a que me achasse interessante(!) e que no dia que eu quisesse um rapaz nem pela cabeça me passava a hipótese de ser rejeitada. Coisas de rapariga...
Comecei a olhar um dos rapazes de uma forma diferente da que via os outros, todas as vezes que ele lá ia a casa,eu tentava dar um ar mais sedutor a mim própria ia visitar as pinturas da minha mãe e lá clocava um pouco de póde arroz na cara.

Um dia houve um lanche na casa dos meus pais. Estavam lá muitas pessoas, os amigos dos meus pais, os filhos desses amigos. Depois de umas horas bem passadas em jogos e outras diversões para a nossa idade, a Mãe chamou para irmos lanchar. Quando estávamos à volta da mesa, o tal rapaz "estrela dos meus olhos" estava um pouco afastado, parecia que preferia conversar em vez de comer. Eu, menininha educada e cheia de atenções, preparei um pratinho com algumas das iguarias da mesa e fui entragar-lho... Ai que ainda hoje sinto a dor!!! Não é que ele pegou no que eu lhe dei e foi entregar o prato à minha irmã, todo cheio de ternura!? Eu vi no olho dele que ele gostava da minha irmã… Que desilusão! Fiquei "louca" de raiva e ciúmes…Sou e desde criança de decisões muitos rápidas e repentinas. Se o pensei de imediato o fiz: abeirei-me da minha irmã, tirei-lhe, o prato com uns olhos devoradores, coloquei-o na mesa e fugi para a cama.


Foi a minha primeira e grande desilusão. Fiquei na cama a chorar. Quando os meus amigos quiseram saber de mim e me localizaram na cama, muito rapidamente me desculpei com a milagrosa desculpa da "dôr de barriga". Dôr de cotovelo é que era!
Durante um tempo andei muito desgostosa e desiludida!


Nessa altura andava a dar uma radionovela, famosa, chamada "Simplesmente Maria". Ai como eu chorava a ouvir os episódios! Como recordo tudo! Havia o parvo do namorado da dita, que lhe fez um filho e não a quis! Era dose para uma rapariga cheia de sonhos. Como vibrava eu com o sucesso da Maria.. Essa novela marcou bastante uma fase da minha vida. Até a minha maneira de olhar os rapazes mudou a partir daí. Estava para mim a "Simplesmente Maria" como está para os jovens de agora a novela "Morangos com Açúcar".

sábado, outubro 15, 2005

Os meus negócios


Depois de termos o nosso clube do livro, que funcionava no celeiro da quinta dos meus pais, este começou a ser muito frequentado quer por amigos nossos quer pelos amigos da minha irmã, o que não achei muito justo. Eles tiravam-nos um pouco a privacidade e liam os livros que eram nossos, e entre todas estabelecemos que quem queria entrar tinha de pagar um bilhete que ficou a ser de 12,5 cêntimos. Alguns não voltaram lá, os "colas", mas muitos continuaram.

Depois fizemos alargar o negócio e vendíamos também castanhas assadas e tremoços. Era uma beleza: chegávamos a fazer por domingo 20 escudos e engrossavamos a assim a nossa biblioteca pois compravamos muito mais livros desde banda desenhada a romances. Tínhamos também revistas de Corin Tellado, Caprichos e a crónica Feminina.

Os meus irmãos foram cúscar ao meu pai que eu os obrigava a pagar e resultou daí uma tremenda confusão lá em casa pois aquilo não era só meu. Bem, mas o meu pai decidiu que isso ficava à minha conta, eu era quem sabia pois a ideia era minha e não deles. Ele convidou-os a seguir o mesmo rumo que eu, que inventassem alguma coisa, mas aquelas pestinhas não me davam sossego. Os mais pequenos, principalmente, ora jogavam à bola lá dentro e deitavam coisas ao chão, ora pregavam partidas aos meus amigos, que consistiam no seguinte: quando algum se levantava e voltava a sentar de novo, no momento do sentar tiravam o banco e aquilo era” malho” certo. Eram terríveis eu bem que tentava impor respeito, mas eram tantos, uns 5. Quem segura cinco crianças endiabradas?

Sempre fui super curiosa, e sempre detestei que não me deixassem ver e remexer em tudo. Ainda hoje sou assim e quem me proibir algo, sinto logo um calafrio e tenho de ultrapassar as regras, contrariando e obedecendo ao meu instinto, nem que me cause dissabores. Essa de menina obediente, que cumpre que faz tudo o que lhe mandam não esteve nunca nem está comigo. Assumo que sou rebelde.
Um dia a minha mãe comprou um pente de cabelo de senhora com um cabo atrás, e esteve com a irmã dela, minha tia, e com a minha irmã mais velha a fazer penteados. Teria eu 14 ou 15 anos . Eu disse: "Mãezinha mostre-me o pente" e ela respondeu: " Não, que o podes partir". Guardou-o e saiu. Pois, e tinha de ser logo comigo, isso. Fui procurar o bendito pente e logo por desgraça minha, mal o coloquei no cabelo para me pentear, não é que o raio do pente parte o cabo e fica em duas partes, pente para um lado e cabo para o outro! Mas pensam que me deixei apanhar tipo “morcona”? Na . Fui à cozinha e no fogão arranjei maneira de colar o pente. Fiz o trabalho tão bem feito que no outro dia a minha mãe foi para usar o pente e ele ficou logo com uma parte para cada lado, mas felizmente não desconfiou de mim. Ficou só zangada com a má qualidade do material. Ufa da que me safei! Era capaz de me dar umas palmaditas, ai acho bem que sim. Mas sabem que ela ainda hoje não sabe desta... e de muitas outras.

terça-feira, outubro 04, 2005

Eu e as minhas amigas



Casamento da irmã da minha mãe

Uns tempos depois da minha comunhão solene tivemos uma reunião na igreja com o padre da paróquia, nós os que tínhamos feito esse acto de fé. Primeiro foi para nos agradecer a forma como nos comportamos, outra foi para que recordássemos para toda a vida o que ali tínhamos prometido. A certa altura lá para o fim da reunião o padre perguntou: "Algum de vocês quer seguir a carreira da igreja? (meninos para padres e raparigas para freiras)". Dois rapazes foram para o seminário e eu levantei-me e disse: “Senhor Abade eu quero ir para freira”. Ficou contente o padre, pois eu era, e ainda sou, bastante dedicada ás coisas de Deus. Pronto, o padre tomou nota e no domingo a seguir falou isso na missa. Mas o que aconteceu foi que o meu pai não me deixou ir mais à catequese: na opinião dele era desonroso uma filha sua seguir a vida de freira. Foi pena pois teria sido uma boa “freira”.

Com uma certa mágua minha, eu era a mais franzina de todos os meus irmãos. Era magricela, ao contrário da minha irmã, que era linda. Uma rapariga morena com tudo em pleno desenvolvimento tinha a atenção dos rapazes, não que isso me importasse, mas não me sentia confortável com essa situação, nessa altura com os meus 14 anos, os rapazes chamavam-me "pele e osso" e não me ligavam grande importância.

Era muito popular e com grande facilidade de fazer amizades e ainda hoje assim sou. Sempre tive um feitio impulsivo, justa e honesta mas senhora do meu nariz, eu era sempre quem liderava o grupo de amigas que me seguiam por todo o lado. Tinhamos montes de projectos, e que "projectos". O que me dava mais prazer e adorava fazer era espionagem aos pares de namorados. Não era para ver o que faziam até porque começavamos a fazer barulho mal os avistavamos. A nossa intenção era descobri-los e começar a fazer javardíce por perto deles até os fazer ir embora. De quando em vez, e sem que eu tivesse prazer nisso, encontrava a minha irmã. Claro que contava à minha mãe e o resultado disso era levar umas estaladas da minha irmã. Claro que eu também dava mas ela dava mais. Eu era realmente uma pestinha. Acho que ainda sou, mas essa de os meus não se portarem bem não dava nem dá comigo. Outro dos nossos passa tempos favorito eram as caminhadas. Chegávamos a fazer 20 km por tarde umas vezes por campos e vales outras por Montanhas e era por esses lados que encontrávamos os namorados.

Como tinha muitas amigas e estavam onde eu estivesse, fora das horas das aulas delas, porque elas tinham continuado os estudos.
Um dia em grupo decidimos que tínhamos de mandar embora uma delas porque nos causava muitos problemas de cúsquice e se o pensamos logo o fizemos. Ela não aceitou a bem a nossa decisão e então fomos levá-la a casa porque não fosse ela espiar-nos. No dia seguinte quando eu andava a regar o jardim ela chamou-me e eu fui ter com ela. Era para me pedir para a deixar andar no grupo mesmo desagradando ás outras-eu não podia fazer isso- ela vai ao bolso, tira uma caixa e entrega-me. Eram uns brincos em ouro e fugiu de seguida. Eu fiquei assustada e fui entregar os brincos ao meu pai que por sua vez os foi levar à mãe dela, a qual confessou ao meu pai que não conhecia aqueles brincos ”mas que ficavam lá”. Eu não contei ás outras a conselho do meu pai.

Eu tinha as minhas tarefas diárias mas fazia uso da mão-de-obra ao meu alcance, e quando o pessoal chegava à minha casa, todas me ajudavam e assim eu concluía o trabalho primeiro que os meus irmãos. Acho que nessa altura até me tornei um pouco preguiçosa o que desagradava aos meus pais que passaram a marcar dias para os meus convívios, de preferência quando eu não tinha nada para fazer, ou então negociávamos eu e os meus irmãos que elas só entravam em casa na condição de ajudar a todos, e assim acontecia.

Com 14 anos, por vésperas da Páscoa, a minha mãe comprava-nos sempre roupas e sapatos novos, eu inquiri a minha mãe no sentido de que eu só aceitava a roupa escolhida por mim. Tinha que ser uma saia travadinha e uns sapatos de salto alto que ao andar faziam um bater tipo “tric tric”. Ela deu-mos mas fez questão de me dizer "Vai te ficar mal pois vais parecer um pau de virar tripas". Quero lá saber- pensei eu - mas estou na moda. Adorei os tais sapatos só que a quase não os conseguia calçar pois não conseguia correr com eles sem dar uma queda.

Eu e as minhas amigas tínhamos um "clube do livro". Um dos primeiros livros que li foi a "Vida de Sofia". Começamos todas por comprar um livro que depois fazíamos rodar entre nós. Todas as semanas deitávamos dinheiro numa caixa e ao fim de um tempo uma delas encarregava-se da compra do livro. Juntamos assim dúzias de livros que era a nossa diversão de Inverno.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Felicidade, rebeldia e outras estórias


A minha comunhão solene

Depois de acabada a escola, ocorrida a morte da minha avó, senti que tinha, tanto quanto possível, que assumir o controlo da minha vida. Estudar, era tanto desejado como impossível, dada a oposição do meu pai. De repente, passei a bábá dos meus irmãos mais novos, o que assumi com resignação.
Só saía de casa para ir à catequese. Aos 13 anos fiz a comunhão solene. Era uma menina muito atenta na igreja e, por isso, desempenhei várias funções durante a cerimónia da comunhão. Cantei, sozinha, ao som do órgão e ao que parece, com o agrado de quem ouviu. Houve mesmo quem dissesse que a foi de fazer chorar os mais sensíveis...
A cerimónia foi linda, ainda hoje a recordo com saudade. Ainda assim, duas coisas me deixaram triste: a ausência da minha madrinha (que era a minha avó, já falecida, como vos contei) e a ausência do meu pai que se tinha zangado com a minha mãe e por isso não foi á igreja, acabou por não assistir à comunhão,foi só a minha mãe. Apesar disso, a cerimónia foi linda e muito marcante para mim.
Chegada a casa, já depois de terminada a cerimónia, o meu irmão, o primogénito, decidiu meter-se comigo, já nem me lembro bem porquê. Apesar de limitada nos movimentos pelo vestido comprido (era um vestido tipo de noiva, com véu e tudo), não hesitei: atirei-me a ele e foi uma bela sessão de pancadaria!! Como poderão concluir, sujei o vestido todo e levei uns tabefes do meu pai, mas foi bem feito para mim. Só mesmo eu para fazer aquilo, no dia da comunhão e com o vestido por tirar! Muito tabefe levei eu, devido a este feitio ríspido!

Sempre fui muito curiosa, por vezes ao extremo. Ainda hoje assim sou, e boas razões teria para ter mudado, porque me dei muitas vezes mal com tanta curiosidade. Na casa dos meus pais criavam-se todo o tipo de animais domésticos. Os que mais me fascinavam eram os pintainhos, que eu adorava ver. Achava-os a coisa mais linda do mundo. Um dia, como de costume, a minha mãe foi dar a volta aos ovos das galinhas no choco, para ver se haviam alguns "picados", sinal que os pintainhos estariam para nascer. A minha mãe achou que estavam mesmo quase a picar, e que, à noitinha, já deveriam estar picados. Isso ficou-me na cabeça... a curiosidade despertou. Assim que a minha mãe saiu fui-me ao ninho, tirei a galinha e descasquei os ovos, para que os pintainhos nascessem mais rapidamente. No dia seguinte, quando a minha mãe lá foi, deparou com o triste espectáculo de 18 ovos descascados e 18 pintos todos mortos... Foi fácil para minha mãe adivinhar a culpada e lá levei mais uns bons tabefes.

A minha vontade de estar no contra, de seguir sempre as minhas regras, não as que me impunham (excepto no caso dos pais, claro, aí tinha que ser, mas não deixava, mesmo assim, de refilar) levou a alguns episódios engraçados. Todos tínhamos a responsabilidade de fazer determinados trabalhos em casa. No Inverno, sendo menor o trabalho nos campos, algumas das criadas ajudavam nesses trabalhos, mas no Verão tocava-nos a nós fazê-lo. Um dia a minha mãe mandou-me lavar umas escadas de madeira. Claro que eu sabia como as deveria lavar, tantas vezes tinha visto as criadas e a minha mãe a fazê-lo. Quando me aprestava para começar a lavar as escadas, chegou lá a casa a mãe da minha mãe, que tinha a mania de me dar ordens e procurar obrigar-me a fazer os trabalhos ao gosto dela. Eu detestava isso! No tal dia da lavagem das escadas, lá teve ela a infeliz ideia de me dizer como eu devia fazer. "Começas aqui de cima e vais certinha até lá abaixo!". Apesar do óbvio bom senso de tais indicações, a veleidade de tentar mandar em mim, fez com que me fosse dando uma coisa. Tinha de fazer alguma coisa, para a contrariar, pensei! E fiz! Decidi lavar as escadas de baixo para cima, porque em mim ninguém mandava! Ainda tive medo que o meu pai chegasse a meio e lá viessem mais uns tabefes, mas isso não aconteceu e lá consegui lavar aí uns 20 degraus de baixo para cima!

Zangava-me muitas vezes com os meus irmãos e, não sei porquê, até os mais pequenos andavam atrás de mim para me apanhar e entregar-me, como troféu, aos mais velhos. Era uma batalha desigual, eu contra 7 irmãos, mas nem isso me fazia desistir. Se não os conseguia enfrentar, andava fugida. Muitas vezes só podia entrar em casa escoltada pelo meu pai, pois com a minha mãe eles davam-me à mesma. Mas nem isso me fazia dobrar, ou eu vencia a minha, ou havia guerra contra todos!
Um dia o meu irmão mais velho zangou-se comigo e deitou-me as bonecas todas fora, o palerma! Que estrago, que confusão houve lá em casa! Mas vinguei-me com lucro: peguei no carrinho de rolamentos que ele tinha e deitei-o a um poço. Ainda hoje não sabe ele onde foi parar o carrinho! Tinha que ser olho por olho, dente por dente!

Em casa dos meus pais rezava-se o terço, à noite, à volta da lareira, no Inverno. Todos estavam presentes, até os criados. Na reza do terço havia um momento em que todos tínhamos de nos levantar, e depois voltar a sentar-nos. A coisa era feita de forma tão rápida que, por vezes, caíamos todos ao chão, incluindo a minha mãe que ia de arrasto! Ainda hoje me rio disso com gosto. Éramos aí uns 10 no meio da cozinha, estendidos pelo chão fora. A minha mãe nem sabia se havia de se rir, se de nos bater a todos, mas quase sempre acabávamos à gargalhada.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Uma nova fase: a autonomia conquistada!




No ano seguinte, de novo na 4ª classe. Apesar de ter estado 3 meses internada no hospital, de Fevereiro a Abril, e ter estado doente praticamente todo o ano, fiz o exame da 4ª classe. Passei com distinção, fui a melhor aluna da escola onde fiz o meu exame, que foi realizado por alunos de 10 freguesias de Braga. Recordo-me tão bem da prova oral! A prova incidiu sobre o rei D. Dinis e também sobre os caminhos de ferro, temas escolhidos por mim. Quando os escolhi, em particular o D. Dinis, lembro-me da troca de olhares entre as professoras, e de me terem inquirido sobre a razão da escolha. Da resposta também me recordo: sempre achei que sobre D. Dinis havia muito para contar e gostava muito de tudo o que com ele se relacionava.

No início desse ano lectivo, alguns colegas começaram a ter explicações com a professora para seguir os estudos, pois tinha de se fazer o exame de admissão ao liceu. Não fiz o pedido para ter essa preparação. Por não o ter feito, a professora perguntou-me se eu não iria continuar a estudar. Tive de lhe dizer que não sabia, uma vez que o meu pai não tinha dito nada. A professora chamou o meu pai à escola, para lhe dizer que achava que eu era uma criança muito inteligente, a quem não se deveria cortar as asas, pelo que a melhor decisão deveria ser a do prosseguimento dos estudos. A resposta do meu pai foi a esperada, infelizmente tão frequente, para tanta gente, à altura: "tenho muitos filhos, e para ela ir estudar teria de os deixar ir a todos. Ela tem os irmãos para tomar conta, é isso que vai fazer!".
Para mim a desilusão, mais uma (!), foi enorme! Mas a professora, apesar da decisão anunciada do meu pai, deu-me as explicações à mesma. Infelizmente, acabado o ano, o pré-anúncio confirmou-se: o meu pai não deixou que me matriculasse no liceu. Recordo-me da frustração e revolta que senti, mas fiz uma promessa a mim própria - voltaria a estudar quando atingisse a maioridade. Promessa que viria a cumprir!

Esta situação, associada à debilidade física já descrita, pode ter sido a causa de alguns problemas de saúde que até hoje persistem, e de que nenhum dos vários médicos consultados descobriu a causa. Um dos mais desagradáveis é o que acontece em momentos de grande stress: perco a visão por momentos, quando a recupero tenho amnésia (que acaba por ser passageira), e subsistem umas dores de cabeça fortíssimas, que ficam o resto do dia.

Aos meus 14 anos morreu a minha amada Avózinha, a minha estrela, a minha protectora. Partiu, vítima de um ataque cardíaco. Depois disso senti-me muito sózinha no mundo. Ainda hoje sinto muito falta dela, ainda a chamo em momentos de dificuldade e desespero! Esta morte gerou em mim uma mudança completa! Passei a contar apenas comigo, passei a arranjar um espaço na minha mente só meu, onde ninguém entrava. Apesar de ouvir o que me diziam e estar atenta aos conselhos dados e cumprir sempre os meus deveres, as decisões sobre a minha vida pessoal passei a tomá-las eu. Até hoje permaneço assim, sou eu quem decide sobre a minha vida, não admito interferências venham de onde vierem. Posso ouvir o que têm para me dizer, e posso até aceitar as opiniões e conselhos, mas só depois de tudo filtrado e ajustado áquilo que penso que é o melhor. Às vezes, até exagero e acabo a não fazer o que é mais correcto, só para me assegurar a mim própria de que não são os outros que decidem a minha vida!

quarta-feira, setembro 07, 2005

O internamento hospitalar e a maldade de uma professora


A minha passagem pelo piano

Nessa altura achava que a minha mãe e irmãos não gostavam de mim,era essa a mensagem que me passavam as tias, essa é uma ideia que toda a vida me tem perseguido. Talvez esteja errada, talvez tenha sido eu quem sempre se afastou deles, e os rejeitei. Quando estava com a minha avó, eu era o centro das atenções. Em casa dos meus pais deixei de ser. Eramos muitos, e eu era das mais velhas.

Aos 10 anos comecei a definhar. Aos 11 fiquei muito doente, e com 12 fui internada no hospital. Estive internada mais ou menos 3 meses. Deixei de comer por completo, não conseguia andar e para me fazer a cama tinham de me pegar ao colo. Passei dias dos quais de nada me lembro. Como que por milagre, numa visita da minha avó, ela levou-me uma peça de coelho, e não é que eu comi?!

Com 12 anos pesava 22 kilos. Todos pensavam que eu ia morrer. Chegaram a tirar a minha mãe em braços do meu quarto do hospital. Tinha dificuldade em abrir os olhos, em virar a cabeça. Só dormia e ouvia, às vezes, as conversas em meu redor. Adormecia de repente, acordava por breves minutos.
Finalmente acabaram por me detectar um tumor que, depois de analisado, se concluiu que era benigno. Removeram-no, comecei a melhorar, e pude abandonar o hospital. Chegada a casa, comecei a aceitar um pouco tudo e todos com mais normalidade. Acho que foi preciso ter estado doente para sentir carinho.

Na quarta classe não passei de ano, não por não ser boa aluna, mas porque a professora era muito má, batia muito em todos. Não me posso queixar muito da "porrada", porque não me tocou lá muito mas, na mesma sala, um dos meus irmãos, que andava na segunda classe ( as salas tinham sempre 2 anos escolares) "levava" bastante. Isso fazia com que eu chorasse muito e que batesse também nas outras raparigas. Fazia coisas terríveis: dava-lhes grandes estaladas, arrancava-lhe os brincos ao puxão, furava-lhes a orelha com as unhas. Eu era terrível, um pavor!

O meu irmão andava sempre com um casacão vestido, que nunca tirava, mesmo às refeições. Um dia, o meu pai zangado, não sei porquê, obrigou-o a tirar o casaco. Quando o tirou, o meu pai reparou ele tinha os braços e costas todas pretas. Primeiro o meu pai pensou que era o meu irmão que precisva de tomar banho. Levou-o ao lavatório e obrigou-o a lavar-se. No entanto, as marcas não saiam. Num grande pranto o meu irmão contou ao meu pai que era a professora que lhe batia. O meu pai perguntou-me e eu confirmei. Perguntou também se eu também tinha o mesmo tratamento, ao que respondi negativamente.
O meu pai foi conversar com os pais de outras crianças e resolveram ir à escola, reclamar com a professora, por bater tanto nas crianças. O resultado foi a professora ter mandado todos aqueles cujos pais tinham participado na "reclamação" para as filas traseiras, e nunca mais ter querido saber de nós. Não corrigia os trabalhos, abandonou-nos por completo. Isto aconteceu por volta de Novembro.
Ir às aulas passou a ser o mesmo que não ir. Nos dias de sol, mesmo de muito sol, a professora passou a deixar aberta a persiana que impedia o sol de dar nas últimas filas. Dizia que o sol nos fazia muito bem. Se algum de nós, antes de ela entrar, a baixasse, ela subia-a de novo, e dizia-nos que, se quisessemos sombra, poderíamos bem esperar pelo fim da aula. Era terrível estar nessas aulas.

Com todo este cenário, acabei por perder o ano. Não foi por não saber, como podem depreender desta narrativa, mas por pura maldade da professora.